O verdadeiro Flamengo acabou?

Eu era um menino de uma cidade do interior de Minas Gerais. Meu pai era apaixonado pelo Flamengo. Eu assistia aos jogos com ele na TV e me encantava ouvir a torcida cantando. As cores vermelha e preta. Brancos e negros abraçados na geral. Então o mesmo amor e admiração foram despertados em mim. Torcer para o Flamengo era torcer para o time mais popular. O time do povo.

Curiosamente, a despedida de Zico foi em minha cidade, Juiz de Fora, e eu estava lá com meu pai no estádio. Não me lembro muito bem do jogo. As imagens que ainda estão em minha memória são as imagens da torcida.

Os anos de ouro do Clube se foram juntamente com Zico. Depois disso, as alegrias se tornaram escassas ou menores. Muitos campeonatos cariocas e apenas dois brasileiros (1992 e 2009) em duas décadas. Nenhuma Libertadores e o domínio dos anos 80 foi ficando para trás. Não passavam de histórias distantes contadas pelo meu velho. Mesmo assim, a torcida do Flamengo se manteve fiel.

Até que em 2019, após alguns anos de importante reestruturação financeira do Clube realizada por Eduardo Bandeira de Mello, assume uma nova diretoria ambiciosa e contrata o maior profissional da história do Clube depois de Zico: o treinador Jorge Jesus. Os títulos voltaram, o futebol bonito também e o seu povo pode sentir na pele a incomparável felicidade de vencer uma Libertadores, de virada, com 2 gols no final do jogo, do maior camisa 9 da história do Clube.

Agora estamos em 2020. O Clube rompeu com a emissora de televisão que detinha os direitos de transmissão de seus jogos no Campeonato Carioca em TV aberta e adquiriu o direito de transmiti-los diretamente, após forte campanha de apoio da torcida nas redes sociais. Contudo, posteriormente ao sucesso da primeira transmissão via YouTube, que se tornou a maior transmissão esportiva da história nesta plataforma, a diretoria, na partida seguinte, resolveu colocar fim parcialmente ao processo de democratização do acesso à transmissão, fazendo acordo com site até então desconhecido e cobrando 10 reais de cada pessoa que quisesse assistir a semifinal do carioca pela internet. Foi um balde de água fria.

Os estádios que já vinham passando pelo processo de elitização, com ingressos cada vez mais caros, agora estão fechados para o público. O mundo enfrenta uma pandemia que já matou meio milhão de pessoas. A crise econômica e o desemprego atingem patamares altos, o que leva muitas famílias a se valerem da ajuda do governo para manter seu sustento. Em paralelo, as redes sociais são a nova geral. É a praça pública da modernidade. A sensação de ver um jogo do Flamengo em uma mídia social aberta, facilmente acessível, trouxe a ilusão de que uma revolução estava em curso, tanto para o bem do Clube, quanto para o bem da torcida. Por tudo isso, o caminho da cobrança obrigatória para assistir a uma partida em um site esportivo desconhecido, em plena pandemia, após grande luta e apoio da torcida pela utilização da FLA TV com essa finalidade, é um dos ataques mais fortes à história popular do Flamengo.

Graças aos problemas operacionais o Flamengo voltou atrás de sua decisão, em cima da hora do jogo. O Clube tem suas raízes na classe humilde e não pode abandonar essas pessoas em um momento tão duro quanto o atual. O verdadeiro Flamengo ainda vive graças a essa gente simples, mas feliz, que encontrou no Clube um dos poucos motivos para sorrir.

O verdadeiro Flamengo ainda não acabou. Contudo, caso não encontre uma maneira de abraçar o seu povo, caso não tenha mais “festa na favela”, dificilmente vai encantar outros meninos do interior ou de bairros mais simples e estará fadado a transformar o Maracanã em um estádio sem vida e sem cores, nos moldes dos tristes estádios elitizados europeus.

SRN

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