O polêmico rodízio de dome

 

A imprensa esportiva brasileira, de maneira geral, mostra certo desconhecimento das nuances táticas do jogo ao criticar a gestão do elenco do Flamengo promovida por Dome.

Na semana passa, na coluna sobre futebol e tática, eu escrevi que o futebol é um esporte coletivo de invasão, que exige dos jogadores a execução dos princípios táticos defendidos por seu treinador.  

Dome, diferentemente de Jesus, gosta do estilo de jogo posicional, que opta pela presença de dois atacantes abertos em cada lateral, o que aumenta o espaço efetivo de jogo em largura. O centroavante, de igual maneira, deve jogar espetado, empurrando a linha de zagueiros para traz, o que aumenta o espaço efetivo de jogo em profundidade. Por isso, creio eu que, em alguns momentos, Dome tenha optado por Pedro e não por Gabigol, pois Pedro faz bem esse papel de jogo entre os dois zagueiros, mantendo-os presos.

Com o aumento da área efetiva de jogo em largura e em profundidade, a defesa adversária passa a ter maior dificuldade na gestão do espaço, o que aumenta as chances de erro e a probabilidade de marcação de gols pelo Flamengo. De igual maneira, os meias também passam a ter uma área maior para atuarem.

Mas, o papel de um jogador em um time profissional bem treinado não para por aí, já que eles devem compreender outros princípios táticos que precisarão utilizar durante a partida. Por exemplo, a formação de linhas de passe, tanto em progressão, para chegar ao gol do adversário, quanto com a finalidade de manutenção da posse de bola, que exige atenção constante e alto desempenho físico.

O momento defensivo e ofensivo, as transições defesa-ataque e ataque-defesa são lados da mesma moeda. Isto é, o time deve atacar sem se desorganizar defensivamente. Uma vez perdida a posse da bola, os jogadores precisam combater no centro de jogo e ao mesmo tempo recompor a linha defensiva, isso tudo de maneira coordenada. Do mesmo modo, você deve se defender sabendo o que fazer quando recuperar a posse da bola. É necessário tomar decisões: Como manter a posse da boa? Onde devo me posicionar para formar uma linha de passe? Devo buscar uma linha de passe direta ou devo me preocupar em manter a posse da bola voltando a bola?

Fixado esse cenário, chega-se a seguinte conclusão, no futebol atual, de alto desempenho, a execução dos princípios táticos operacionais exige do jogador condicionamento físico adequado, pois, basta uma omissão ou erro para sobrecarregar seus companheiros de equipe e inviabilizar a execução do sistema de jogo proposto pelo treinador.

O calendário brasileiro já é insano em um ano normal, mas, com a pandemia se tornou insuportável, o que para um treinador estrangeiro torna inafastável a exigência de rodízio no elenco com a finalidade de manter o nível de jogo da equipe. Assim, a escolha de Dome visa colocar os melhores em campo para cada partida, para que eles tenham condições físicas de executar as suas funções em prol de coletivo e não de seus interesses individuais.

Como dito pelo próprio treinador, em um elenco como o atual do Flamengo, em que pelo menos 20 jogadores possuem alto nível, não seria adequado manter um jogador com 50% ou 70% de sua capacidade física em campo, quando ele tem no banco outro que está a 100%. E somente jogadores em plenas condições físicas conseguem operacionalizar princípios táticos de alta complexidade e exigência, como os já descritos neste artigo: formação de linhas de passe, recomposição das linhas defensivas, transições, combate ao centro de jogo, execução de linha de passe direta em busca de uma transição mais rápida; busca pela superioridade numérica de jogadores no centro de jogo etc.

Antes que digam que Jorge Jesus não se valeu do rodízio para obter sucesso em 2019, é importante destacar os seguintes pontos: i) – em 2019 não houve pandemia; ii) – o Flamengo foi eliminado da Copa do Brasil, o que trouxe aberturas no calendário para descanso e treinamento; iii) – com a Copa América, o Flamengo fez uma pré-temporada no meio do ano; iv) – o elenco de 2019 não era tão homogêneo quanto o elenco de 2020, o que dificultava a manutenção do desempenho com a escalação de reservas; v) – a mais importante – Dome não é Jorge Jesus!

Por fim, as duas próximas semanas serão muito importantes para o Flamengo, pois, pela primeira vez, o trabalho de Dome vai ser submetido a uma competição internacional (enfrenta o Independiente del Vale e o Barcelona no Equador pela Libertadores), que possui o formato de Copa, que exige maior controle de jogo e minimização de erros.

Para ganhar essa difícil competição continental o time ainda precisa evoluir significativamente em busca de maior equilíbrio e consistência defensiva, porque na fase de mata-mata uma vitória pelo placar de 5 x 3 dentro de casa permite que você seja eliminado com um simples 2 x 0 na partida seguinte. O critério do gol fora de casa – que, diga-se de passagem, deveria ser extinto do futebol -, impõe que o time ataque sempre sem se desorganizar defensivamente. 

Diante de tudo que foi dito, todo apoio ao rodízio do Dome, para que o Flamengo sempre tenha em campo os jogadores em melhores condições físicas e técnicas dentro de campo, o que permitirá a melhor execução dos princípios táticos defendidos pelo treinador.

SRN

Conteúdo exclusivo do Clube mais Querido do Brasil