E se ceni fosse português?

A ideia de escrever esta coluna surgiu da inquietação com a pouca credibilidade do treinador mesmo após a arrancada recente do Flamengo nos últimos 8 jogos. Desde a partida contra o Goiás, foram 6 vitórias, 1 empate e 1 derrota.

No Brasileirão, Ceni possui aproveitamento de 68.7%, enquanto seu aproveitamento geral no Flamengo é de cerca de 58.3%. O aproveitamento geral cai devido a coragem do treinador de assumir o Clube 1 dia antes do primeiro confronto contra o SP pela Copa do Brasil. Na sua primeira semana de trabalho foram 3 jogos em 7 dias, com poucos treinos, momento em que o time sofreu 2 derrotas contra o SP e 1 empate contra o Atlético-GO.

No entanto, o que mais impressiona não é o aproveitamento do treinador, mas sim o fato de que as alterações táticas corajosas que promoveu trouxeram resultados visíveis no desempenho do time, mas que não são devidamente reconhecidas por parte da torcida e da imprensa esportiva brasileira.

A ida de Arão para a zaga e a entrada de Diego no meio deram ao Flamengo uma formação tática muito semelhante àquela proposta por Guardiola, que frequentemente escala laterais ou meio-campistas como zagueiros para melhorar a saída de bola da equipe. Foi o que o espanhol fez com Alaba no Bayern, que de lateral-esquerdo passou a atuar como zagueiro, ou com Fernandinho na última temporada, que em vários jogos atuou como zagueiro no City.

Com a ida de Arão para a zaga, o meio-campo do Flamengo é escalado por Ceni com três jogadores camisas 10 de origem – Diego, Gerson e Arrascaeta -, o que dá ao time uma consistência invejável na manutenção da posse da bola. Mesmo Jorge Jesus, quando utilizava Diego, sempre o fazia na vaga de Gerson e nunca deu ao meia uma sequência de jogos ao lado do camisa 8, como faz Rogério.

Todas essas mudanças refletiram no desempenho ofensivo do time, que voltou a ter o melhor ataque do Brasileirão, assim como contribuíram para a maior consistência da defesa, que em 4 dos últimos 8 jogos não sofreu gols.

Então, por que o trabalho do treinador não é reconhecido mesmo após interferências tão positivas?

Para mim, fica claro que Ceni cometeu grave erro ao assumir a equipe faltando um 1 dia para o jogo contra o SP pela Copa do Brasil. A desclassificação do torneio é colocada injustamente na sua conta, quando, na verdade, o treinador sequer teve tempo de treinamento para modificar a realidade do time, que nas semanas anteriores ao confronto havia tomado duas goleadas pelo Campeonato Brasileiro, sendo uma delas em casa para o mesmo SP.

Outro motivo para que não seja reconhecido o trabalho de Ceni é o fato de ser um jovem treinador brasileiro e, por isso, não contar com a grife e a paciência que a torcida tem com treinadores estrangeiros. O sucesso de Jorge Jesus trouxe a falsa ideia de que qualquer treinador estrangeiro é melhor que os treinadores brasileiros. O fracasso de Dome demonstrou que isso não é verdade.

Ceni é um treinador em franca ascensão e com um futuro realmente promissor. Se fosse um jovem talentoso treinador português, eu tenho certeza que tanto a torcida, quanto a imprensa, teriam outra forma de interpretar a evolução do trabalho do treinador. Os avanços seriam reconhecidos.

O único torneio em que Ceni teve tempo para realizar o seu trabalho foi o Brasileirão e ele tem aproveitamento que se aproxima dos 70%. Aproveitamento de campeão, que deveria credenciá-lo para ocupar o cargo de treinador na próxima temporada, independentemente de ser ou não o Campeão Brasileiro de 2020.  A saída do treinador, em seu melhor momento no Clube, só se justificaria em caso de perda de título e para a chegada de um treinador consolidado no mercado internacional, como Gallardo ou Jorge Jesus, caso contrário, Ceni me parece a melhor opção para a temporada 2021.

Em caso de título brasileiro, eu me arrisco a dizer que Rogério Ceni fará um 2021 com alto grau de competitividade, o que credenciará o Flamengo à disputa do título Brasileiro e da Libertadores, como franco favorito.

SRN

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