CRISE NO FLAMENGO: OS TRÊS DEFEITOS APARENTES DE DOME

O Flamengo vinha de 4 vitórias consecutivas no Campeonato Brasileiro. A rodada era favorável ao Clube que enfrentaria o Ceará em Fortaleza. Bruno Henrique recuperado de lesão voltaria na Libertadores no meio de semana. As coisas pareciam se encaixar, ainda que lentamente.

No primeiro tempo da partida em Fortaleza, o time foi bem. Gabigol perdeu algumas oportunidades. Vitinho não conseguia dar sequência às diversas oportunidades que teve durante a primeira parte de jogo, caso contrário, o time poderia ter saído em vantagem para o intervalo.

Iniciado o segundo tempo, o Ceará voltou melhor. O bom treinador Guto Ferreira conseguiu dar uma resposta tática à estratégia adotada por Dome durante o intervalo. Encaixou a marcação e o Vozão então saiu na frente no placar. Aí começaram os problemas, que demonstram, a meu ver, a primeira grande limitação do técnico do Flamengo: dificuldade de leitura durante a partida.

Já na primeira substituição, o treinador se equivocou e tirou Michael, que jogava do lado direito de ataque, para colocar Pedro. Neste momento, o Flamengo passou a jogar com dois centroavantes, tática que não funcionou nos jogos anteriores, com Gabigol caindo eventualmente pela direita e ER ainda adaptado na meia. Nitidamente, a alteração correta seria a saída de Vitinho para a entrada de Diego, o que levaria os jogadores novamente para as suas posições de origem: E. Ribeiro voltaria para a direita de ataque; Michael para a esquerda do ataque; Gabigol seguiria como centroavante; Diego e T. Maia fazendo o meio-campo com Arão.

As alterações que seguiram também só produziram o mesmo efeito da primeira: desorganizaram a equipe. Inevitavelmente a derrota veio, 2 X 0, e a sonhada chegada na liderança virou frustração. Pior que ser derrotado, é a sensação de que seu treinador não conseguiu exergar o que houve no jogo taticamente e responder às alterações do adversário.

O mesmo cenário se repetiu contra o Independiente Del Valle e, de certa maneira, se agravou, pois o treinador se equivocou claramente desde a escalação inicial.

Em um jogo na altitude, dificilmente a sua equipe consegue manter o fôlego durante os dois tempos da partida, por isso, é necessário que estejam em campo durante o início os jogadores com maior capacidade aeróbica para suportar a partida e, no primeiro tempo, tentar abrir o placar. No segundo tempo, inevitavelmente, o seu time sentirá o cansaço e precisará estar com o resultado já construído para mantê-lo. Contudo, Dome inverteu a lógica. Iniciou o jogo com Diego, ER e Arrascaeta no meio-campo, com Gabigol isolado no ataque. Esta escalação mais lenta seria perfeita em um cenário sem altitude, pois permitiria manter a posse da bola no primeiro tempo e no segundo tempo seria possível abrir a sua equipe já com o adversário cansado. Mas, na altitude, essa estratégia é suicida, pois, na altitude, SEMPRE é o time visitante quem sente o segundo tempo.

E a tragédia anunciada se concretizou. O time suportou como pôde, mas, perto do fim do primeiro tempo tomou o primeiro gol. No segundo tempo, já com os jogadores do Flamengo cansados, Dome tentou abrir a equipe em busca do empate com a entrada de Bruno Henrique. Era tarde. Bruno Henrique entrou bem, mas seus companheiros já não tinham forças. Foi o cenário ideal para o jovem, rápido e bem treinado time do Del Valle ampliar a vitória e submeter o Flamengo a um de seus maiores vexames de sua história.

Assim, tanto no jogo contra o Ceará, quanto no jogo da Libertadores, saltou aos olhos a dificuldade de Dome de fazer a leitura das partidas e de entender o contexto de um jogo. Contra o Ceará era o jogo em busca da liderança – R. Caio deveria ter jogado e BH poderia ter viajado para entrar no segundo tempo e ganhar ritmo. Contra o Del Valle era um jogo na altitude, era claro que F. Luís e Diego sentiriam muito a partida, pela idade. As estratégias foram flagrantemente equivocadas e fracassadas, como o resultado e o desempenho da equipe durante as partidas demonstraram.

As falhas na estratégia de jogo fazem com que o rodízio proposto pelo treinador fracasse, sendo este o segundo grande problema: implementação do rodízio sem que possua um time titular que tenha compreendido os princípios táticos que o treinador quer passar.

O treinador utilizou mal a ideia de promover rodízio no elenco. Era necessário a repetição de uma equipe titular antes da volta da Libertadores. O rodízio poderia ser feito durante as partidas, pois, com a pandemia, a FIFA admitiu que 5 substituições sejam feitas. Admito que sou a favor do rodízio nesta temporada especificamente, pois o calendário ficou muito apertado, contudo, antes de promovê-lo, o treinador deveria ter uma equipe titular bem entrosada, para que assim sua ideia de jogo fosse assimilada mais rapidamente. As mudanças seguidas na escalação, partida após partida, impediram que o time colocasse em prática jogo coletivo, em razão do desentrosamento.

O terceiro e último defeito demonstrado pelo treinador é a dificuldade na gestão do elenco. Foram diversos os casos de jogadores substituídos e insatisfeitos, o que demonstra a dificuldade do treinador de fazer com que os jogadores acreditem nas suas ideias. Essas cenas são habituais no esporte, mas, no caso de Dome, elas ocorreram com Arrascaeta, E. Ribeiro, Gérson e Gabigol em apenas 11 jogos do treinador. No início do trabalho, é normal que os profissionais sejam mais tolerantes e pacientes, mas, não é a atitude que se nota dos jogadores do Flamengo com Dome, o que demonstra, pelo menos analisando à distância, a existência de dificuldade do treinador na gestão de pessoas.

Neste ponto, é preciso que a torcida entenda que um treinador, além de dominar a tática e estratégia do jogo, deve ser também um GESTOR DE PESSOAS, pois organiza os trabalhos de sua comissão técnica e dos jogadores. É um grupo de trabalho grande, que deve chegar, facilmente, a 40 pessoas, somando jogadores e membros da Comissão.

Já partindo para a conclusão, fica claro que Dome, neste início de trabalho, demonstrou 3 (três) defeitos ou dificuldades iniciais: leitura equivocada dos jogos; implementação precipitada do rodízio sem consolidação de uma equipe titular; e dificuldade na gestão do elenco.

Quanto aos demais aspectos técnicos, especialmente a qualidade e intensidade dos treinamento, cabe aos profissionais da Diretoria de Futebol do Flamengo avaliar. No entanto, as 3 (três) dificuldades acima descritas já justificariam, em tese, a substituição do treinador, tendo em vista a ausência de tempo durante esta temporada para que ele se adapte e evolua nos três quesitos. Nada contra a pessoa de Dome, mas, neste ano especificamente, o Clube não tem  tempo para aguardar a adaptação de um BOM profissional que ainda dá os primeiros passos na carreira como treinador principal.

Assim, caso o clube decida pela demissão, o Marcos Braz deve manter a tranquilidade, como bom profissional que sempre foi e é. Dome foi uma escolha corajosa. Caso conseguisse colocar em prática os conceitos de jogo da “Escola Guardiola” o sucesso seria inevitável, mas, não foi o que houve e este ano não é possível esperar. É necessário uma resposta rápida, pois a demora pode custar títulos.

A escolha do sucessor de Dome vai ser tão delicada quanto a escolha do sucessor de Jorge Jesus. Em relação aos treinadores brasileiros, T. Nunes seria a opção mais rápida e, apesar do desempenho ruim no Corínthians, ele encontraria no Flamengo um elenco mais parecido com aquele que possuía no Athlético-PR, onde foi campeão da Copa Sulamericana e da Copa do Brasil.

Em relação aos treinadores estrangeiros, as opções são mais atraentes, mas envolveria a necessidade de pagar multas rescisórias, pois Coudet, Ramirez e Sampaoli estão empregados. Qualquer um dos três, a meu ver, daria um resposta rápida e corrigiria o rumo incerto que caracteriza o time na atualidade.

Se o Flamengo seguir com Dome terá uma temporada incerta. Pode até dar certo ao final, mas, haverá maior probabilidade de fracasso. Por outro lado, se conseguir a contratação de Sampaoli, Ramirez ou Coudet o time contará com profissional qualificado e experiente na função de treinador principal, o que aumenta as suas chances de manter os títulos da Libertadores e do Brasileirão.

SRN

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